quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Vida de Solteira ...


Fiquei um pouco mais na cama, tentando criar coragem para enfrentar o dia que me esperava. Olhei pela janela do quarto, o tempo estava nublado, fazia um friozinho inebriante, o que me deixava com mais preguiça ainda de me levantar. Veio em minha mente todas as palavras que não foram ditas, que não puderam ser, já que o carinha com quem estava saindo resolveu do dia para noite que não estava mais interessado, que a graça havia acabado, pelo menos é o que eu achava já que o toque personalizado que coloquei no celular já não tocava mais.

Me espreguicei, uma, duas, três, quatro vezes, até finalmente sentir o chão gelado com meus pés. Fui saltitando até o banheiro, peguei a pasta e a escova de dentes e ao fechar o armário dei de cara comigo, o cabelo tinha criado uma estranha forma arrepiada na parte de trás da cabeça, duas bolsas enormes meio roxeadas pairavam embaixo dos meus olhos verdes brilhantes, parecia um zumbi desses filmes baratos. E um leve pensamento de como alguém se interessaria de qualquer forma por aquela imagem refletida no espelho, passou por um segundo em minha mente.

Tropecei ao subir uma escadinha que levava para a calçada de frente para aonde havia estacionado o carro, abri a porta, joguei tudo que estava em minhas mãos no banco do passageiro, sentei no banco, coloquei as mãos no volante, e chorei de novo, chorei por todas ás vezes que tive que passar por esse mesmo desprezo, sem nenhuma razão aparente. E me recompus, respirei fundo e falei mil vezes em pensamento - hoje não, seja forte, mulher e não uma garota. Limpei a maquiagem que havia borrado, liguei o carro, coloquei o som bem alto e parti.

Meu celular não parava de tocar, minha mãe queria saber como andava o meu mais novo partido, minhas amigas queriam marcar um encontro, meu Chefe saber o porque de ainda não ter chegado, sem falar em todos aqueles grupos que não paravam de apitar com seus Bons Dias... Bom para quem? pensei. Minha mente tentava processar tudo, qual desculpa daria dessa vez para mais um "partido" que ia embora sem aviso prévio em menos de um mês, a roupa que deveria usar para encontrar com as meninas e como falar para o meu Chefe que não dormi a noite inteira pensando no desastre que era minha vida profissional e amorosa e que precisava de pelo menos uns quatro meses de férias para me recuperar de tudo, mas que tive apenas uma noite e que um atrasinho apesar de tudo era muito justificável.

Coloquei um sorriso no rosto, dei uma olhada de novo na maquiagem e entrei no prédio como se não soubesse do atraso de trinta minutos. Mergulhei no trabalho, perdi o horário de almoço e acabei comendo uma barrinha de cereal que tinha jogado dentro da bolsa. Mas o que será que foi dessa vez, parei um momento para tentar desvendar o quebra-cabeça. Eu não demonstrei que estava apaixonada, deixei passar dois dias para mandar uma mensagem depois da primeira vez que saímos, a conversa parecia rolar naturalmente, saímos mais umas quatro vezes e me lembro de tê-lo visto sorrir todas ás vezes.

Fui interrompida com uma batida na porta, era Amanda, minha secretária lembrando que já estava na hora de ir. Arrumei tudo em minha mesa, entrei no carro e estacionei de frente com o costumeiro bar, o nosso bar preferido. Cheguei até a mesa e abracei todas as três. Pedi uma cerveja para acompanhá-las e uma delas nem bem deixou que eu me sentasse e soltou logo.

_ O que que aconteceu? o Babaca pelo menos deu alguma explicação ou sumiu como todos os outros?

Peguei minha cerveja, respirei fundo, prestei mais atenção do que deveria nas palavrinhas "todos os outros" e fiz uma careta, porque já estava virando algo frequente e sim com todos eles, e falei o que todas já sabiam.

_ Sumiu. Numa hora estava tudo lindo e perfeito, conversas que não pareciam ter fim, de manhã, de tarde e de noite. De repente começaram a ser apenas no final do dia, depois respostas monossilábicas até não ter mais nenhuma resposta.

_ B A B A C A!

Todas disseram juntas em alto e bom som, seguido de um brinde e todas começamos a falar dos desastres que nossos "partidos" se tornaram, uma a uma e não, não havia diferença em quase nenhuma das histórias. Tudo começava muito bem, conversas, encontros, beijos que batiam, interesses em comum, sexo bom ou não tão bom assim, mas ninguém é perfeito não é mesmo?! e mesmo assim, alguns dias depois a pessoa passava de falante, para monossilábica, para sem resposta alguma.

_ Tem que ter uma explicação plausível.
_ Tem sim, eles são todos B A B A C A S.
_ Mas não é possível que todos sejam.
_ É possível sim.

E nós caímos na gargalhada.

_ Talvez seja alguma mania que eu tenha e ainda não percebi capaz de irritar todos eles e depois de um tempo desistirem e saírem correndo.
_ É sim, uma mania, mas uma mania feia deles de sumirem sem pelo menos uma explicação.

E como se esquece de um compromisso chato que você tinha, o assunto foi esquecido também. Passamos para nossas vidas profissionais e nossos chefes chatos, para nossas famílias e as cobranças de casamentos e filhos e finalmente para quando seria nosso próximo encontro, mas na casa de uma de nós para que pudéssemos nos embebedar de vinho e bebidinhas coloridinhas e bonitinhas, falar mal de todos os homens e dormirmos nos colchões espalhados pela casa. Levantei para ir ao banheiro e ao virar o corredor bati de frente com ele.

_ Desculpa!
_ Ah! Não foi nada, não é sempre que a gente topa assim com uma mulher tão bonita não é mesmo?. Meu nome é Carlos, a propósito. E o seu?

E como se eu não soubesse aonde tudo isso ia dar, todas as conversas empolgantes, todas os encontros, todos os sorrisos, até tudo se tornar monossilábico, decepcionante, noites acordada tentando decifrar o que deu errado e virar uma conversa com amigas no bar. Tentando acreditar no impossível e ter um pouquinho de fé, eu prontamente respondi:

_Júlia, meu nome é Júlia.

E dentro da minha bolsa um som conhecido, um toque personalizado resolveu reviver outra vez, como se pressentisse o sabor do esquecimento.